Pular para o conteúdo principal

O outro lado - Parte I - #EP22

Foto: 6tou, arquivo pessoal, 2021.



O som do alarme anuncia que já são 7 da manhã.

Pablo desperta e pega seu celular em busca de novas mensagens. Ele não sabe exatamente o que quer receber, mas já sabe que vai encontrar a barra de notificações daquele celular bem cheia. Irritantemente cheia. Entre aquela imensidão de mensagens soltas ele mal percebe o gif de bom dia enviado pelo avô.

- Bom dia, tudo na vida é aprendizado, tudo na vida SE SUPERA. Como você tá meu filho?

- Bom dia, vô, te amo, sdd. Ele responde mentalmente, pois crê que irá voltar àquela mensagem depois de um bom gole de café. A gente já sabe que isso não vai acontecer.

Assim como aquela cicatriz na bochecha, o celular já havia se tornado uma extensão do seu corpo, andava pra cima e pra baixo, para o lado e para o outro. Era como aquele sinal, frio, mas presente... latente em seu rosto. De repente, a tela do celular vai escurecendo e bloqueia e entre os trincados do vidro quebrado viu o seu breve reflexo: os olhos verdes fundos de uma noite mal dormida como se tivesse ali, o observando e o julgando. Ele aperta o botão lateral e o celular acende num clarão que o deixa desnorteado por um momento, em seguida ele liga a câmera frontal e se assusta.

- Caralho, preciso colocar um filtro nessa porra. Depois de 15 tentativas em busca da foto perfeita, ele desiste.

Naquela rede social de gente feliz, ele encontra um feed carregado de rostos bonitos e começa a pensar porque o dele não ser daquele jeito. Sorrisos despreocupados... às 7 da manhã. Talvez essa resposta não seja interessante agora e ele se direciona para a cozinha. Rápido, pois está levemente atrasado e em breve o ônibus das 9 irá passar. Pablo era um cara popular nas redes sociais, suas fotos e vídeos viralizavam por aí, era um cara astuto que sabia usar o jogo das palavras virtuais quando recebia comentários ou mensagens ou como ele colocava em suas legendas despretensiosas o biscoito. Todos queriam ser amigos de Pablo, mas ele só pensava no próximo esporro que iria levar de seu chefe quando o visse de novo chegando atrasado naquele serviço desgastante.

E foi exatamente o que aconteceu, assim que ele chegou foi avisado aos gritos de que se acontecesse mais uma vez seria demitido. Pablo, o inatingível das redes sociais, que tinha sempre uma resposta pra tudo, mas que não conseguia formular uma frase para mandar aquele otário para a casa do caralho. Aliás, o que o consolava era que ninguém ali na empresa o seguia na internet ou pelo menos ele achava isso. Ali na naquela cadeira diante do computador do escritório ele se perguntava em que rumo a vida dele estava indo e porque seu personagem de destemido não o ajudava aqui fora, na vida real, onde não há elogios sobre a aparência, onde ninguém se importa com você ou te perguntou porque os teus olhos estavam fundos e perdidos.

Ele novamente pega o celular e este vibra com tantas mensagens, mas nenhuma delas era a que ele esperava. Ali diante da sua mesa um olhar sereno estava sobre a tela de um outro computador. O dono daqueles olhos tinha um cabelo escuro e brilhoso como a noite vista do campo de onde morava. Estava tão concentrado, mas não perdia a beleza que filtro nenhum conseguiria alcançar com tanta magnitude e exatidão. De repente seus olhos atravessam o escritório e vão ao encontro dos de Pablo que nesse momento se abaixa e cora de tanta vergonha derrubando a imensidão de papeis em sua mesa que precisava organizar.

- Eu só dou bola fora, o que acontece comigo... O que seus seguidores não sabiam era que Pablo era extremamente tímido e desajeitado. Vivia derrubando as coisas por onde passava, seu corpo não era tão definido quanto o ângulo daquelas fotos demonstravam. Sendo quando via o Marcos ficava sem jeito, tremia ao cumprimenta-lo, nas redes sociais era muito bem resolvido com a sua sexualidade, mas na vida real tinha medo de ser, de estar, de sentir o que sempre sentiu.

Antes de ir dormir, buscava o perfil de Caio no Instagram, Twitter, mas não encontrava em lugar nenhum, precisava daquilo, precisava ir dormir pensando se ele postou alguma indireta, se visualizou algum de seus stories. Achava que o personagem que construiu na web era muito mais interessante e somente assim seria notado pelo cara que o fazia perder as estruturas só com aquele bom dia.

- Aliás, por falar em bom dia, acho que tô esquecendo alguma coisa. Ah esquece. Amanhã é um novo dia e preciso acordar a tempo, não quero ser demitido com essas tantas contas pra pagar. Ele curte os últimos comentários em sua foto e vai dormir.

Do outro lado da cidade, um pouco distante dali seu avô ainda aguarda o bom dia que enviou pela manhã pra poder ir descansar sabendo que seu neto estava bem. 

Episódio anterior - CORPO LIVRE: o mito da beleza e a pressão estética sobre o corpo feminino #EP21 (part. Bea Cabral, Ingrid Piauilino, Karol Abreu, Letícia Medeiros e Thamires Carvalho) 

Episódio seguinte - O OUTRO LADO - PARTE II - FINAL 

created with MySignature.io
Platonyco | Estudante de Letras
| Criador do Sextou com Platonyco
| mobile:  (98) 9 91552450
Create your own signature

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enfretamento ao Racismo (feat. Prof. Leandro Costa)

Foto: Enfrentamento ao Racismo, Leandro Costa. 2020 Sexta feira, 12 de junho de 2020, finzinho de mais uma semana, que mais uma vez foi tensa e que seguiu com os protestos antirracistas ao redor do mundo. Em meio à pandemia, as pessoas seguem se mobilizando, à sua maneira. Eu comentei recentemente que nós temos a tendência de tentar apagar aquilo que nos fere ou feriu quem a gente ama. Para algumas pessoas é mais fácil fingir que o assunto nunca existiu, mas pra outras fica marcadas desde sempre. Porque elas perdem alguém, porque uma filha perde seu pai quando vai ao supermercado ou uma mãe perde seu filho enquanto está trabalhando. No episódio de hoje convidei Leandro Costa que é professor da Faculdade Santa Terezinha - CEST, é doutorando em ciências sociais pelo PPGCSOC-UFMA e membro do grupo de estudos Lutas Sociais, Igualdade e Diversidade (LIDA-UEMA). Formado em Ciências Sociais pela UEMA e mestre em Ciências sociais pela UFMA, é professor das áreas de Sociologia e Antropologia

Resistência e Redescoberta - a importância do #BlackLivesMatter

Fonte: Arquivo pessoal, 2020. Era uma segunda-feira, 25 de maio, você provavelmente estava no conforto da sua casa ou talvez no trabalho, talvez até mesmo pensativo sobre os rumos em que o distanciamento social está tomando. Nesse mesmo dia, um homem negro, de 46 anos, é acusado de comprar cigarros usando uma nota falsificada. Desarmado, ele é rendido e imobilizado com o joelho de um policial em seu pescoço por mais de nove minutos, mesmo avisando que não conseguia respirar, ele é negligenciado e morre. Uma adolescente de 17 anos filma tudo e rapidamente o vídeo toma conta das redes sociais, o que gera diversos protestos e manifestações nos EUA e ao redor do mundo, encorajando, inclusive movimentos já existentes contra a violência racial aqui no Brasil. Mesmo com a hashtag #BlackLivesMatter se multiplicando nas redes sociais, o que é interessante, já que é uma luta de todos contra o racismo, as nossas atitudes (e quando digo nossas, eu me incluo nessa categoria) precisam muito aind

Milagre na Cela 7 e Uma Lição de Amor: histórias conectadas e muito choro!

Foto: Arquivo Pessoal, 2020. E mais uma sexta-feira chuvosa, 15 de maio de 2020, chegou e com ela chegou também o Sextou com Platonyco . Hoje eu vou tratar com vocês sobre dois filmes que são super emocionantes, inclusive um que pelo seu recente sucesso tem sido comentado por muita gente. Confesso que fiquei relutante no início pra assistir, mas olha... fazia muito tempo que eu não chorava com uma produção tão sensível quanto essa. Isso porque Milagre na Cela 7 te faz refletir sobre princípios e valores que se fazem raros em nossos dias. Dirigido por  Mehmet Ada Öztekin , esse é um filme turco adaptado do filme sul-coreano Miracle in Cell No 7 de Lee Hwan-gyeong (2013). E não dá para falar de o Milagre na Cela 7 sem lembrar é claro de Uma Lição de Amor , filme de 2001, dirigido por Jessie Nelson e que teve no elenco Sean Penn, Michelle Pfiffer e as irmãs Dakota e Elle Fanning. Mas antes de falar um pouco mais sobre esses filmes quero deixar claro para quem tá chegando agora que o obj