Para Sempre Alice - EP# 19

Para Sempre Alice
Foto: 6tou, Arquivo Pessoal, 2020.


Faz ideia do quanto você lutou para chegar aonde você se encontra? Aqueles anos dentro de uma sala de aula, de universidade... O tanto que você abriu mão diante de algumas escolhas para estar exatamente onde você está? Tudo é uma construção e todo sacrifício foi válido para que você ocupasse o espaço que sempre quis. Depois de olhar para trás você percebe que tudo valeu a pena, que no final tudo deu certo, mas e se de repente você soubesse que todas as memórias que você acumulou ao longo do tempo estivessem te dizendo adeus aos poucos, todos os dias? Como você lidaria com o fato de saber que amanhã ou hoje mesmo já não soubesse quem é. Parece uma grande ironia com a sua cara, né? Mas essa história aconteceu com Alice Howland, escrita por Lisa Genova.

Tá, mas quem é Alice Howland, bom Alice é uma renomada doutora e professora de linguística, mãe de três filhos e com um casamento bem sucedido. Sabe quando você simplesmente esquece de certas palavras, ruas, nomes e acha que tá tudo bem porque isso é aparentemente normal? Alice começa a ficar inquieta diante de coisas básicas do dia-a-dia que se tornavam enormes armadilhas para o seu cérebro treinado por leituras científicas. Ela então é diagnosticada com Alzheimer e sua vida vira de cabeça pra baixo. Essa doença coloca em prova à força de sua família e sua principalmente.

Para quem não sabe o Alzheimer precoce ou, "demência pré-senil", é uma doença genética hereditária e que tem início antes dos 65 anos, normalmente entre 30 e 50 anos, idade de Alice e acontece pelo excesso de uma proteína chamada tau e amilóide-beta no cérebro, especificamente na parte responsável pela fala e memória, segundo o site tuasaúde.com. E como o diagnóstico da doença é tardio a única coisa que resta controlar os sintomas com medicação já que a doença leva a perda da cognição, a falha ou perda de memória, confusão mental, agressividade e dificuldade em fazer atividades de rotina diária que é o que falei para você no início. Agora imaginem vocês para uma mulher que foi independente a vida inteira ter que conviver que essa nova realidade?

A relação dela com o marido John que também é um cientista teve que se readaptar e isso foi uma grande barreira no inicio da doença, pois ele aparentemente não queria abrir mão de suas reuniões e compromissos para dedicar tempo à esposa, mas na verdade essa era uma forma de escape que ele havia encontrado porquê desde o início ele nunca aceitou o diagnóstico e chega  até a duvidar do laudo do médico que cuidava dela por essa ser uma doença muito rara, então quanto mais tempo ele passasse ocupado com suas atividades profissionais, menos ele lidaria com os fatos. Agora sua esposa estaria inteiramente dependente dele e do restante da família.

Alice tinha três filhos, Anna, Tom e Lydia e essa última, diferente dos irmãos, por não optar por seguir uma carreira acadêmica e se dedicar ao teatro, era o grande alvo de críticas da mãe. Alice amava os seus filhos, mas era evidente que as expectativas que colocava em cima de sua filha transformavam a relação das duas em algo bastante tóxico e isso fez com que ambas se afastassem. Assim, Anna e Tom era os filhos mais próximos justamente por seguir os passos da mãe e do pai. Anna estava grávida e contava os meses para a chegada do seu bebê e Tom era dedicado aos seus estudos no curso de Medicina. Era sempre criticado pela irmã por sempre estar com uma namorada nova. A Anna mantinha com a mãe um joguinho de palavras de celular que as conectavam mesmo que distante por conta dos compromissos do dia-a-dia.

Alice resolve fazer uma reunião e decide contar aos seus filhos o seu diagnóstico e lógico que todos ficaram muito abalados com a notícia. Mas não mais do que Alice que ainda processava tudo o que estava prestes a acontecer em sua vida, ela teria que lidar com o fato de que mais tarde já não iria mais reconhecer os seus filhos, seu futuro neto, o marido e todo o seu brilhante caminho traçado na Universidade e por meio de suas palestras ao redor do mundo sobre as suas descobertas científicas que impulsionavam os estudos linguísticos.

O Alzheimer, normalmente, não é hereditário, mas Anna e Tom resolvem fazer o teste porque existem alguns genes que podem ser herdados dos pais e que aumentam o risco de desenvolver Doença de Alzheimer. Lydia é a única que prefere não saber do resultado porque acredita que viverá mais feliz sem o diagnóstico. E é interessante que apesar dos dois filhos mais velhos serem mais próximos da mãe, eles simplesmente a abandonam nesse processo e é Lydia, a filha caçula, a mais rejeitada pela mãe, que abre mão de sua futura vida artística para cuidar da mãe que fica teimosa e agressiva a cada dia.

Eu gostaria de contar mais sobre essa história, mas queria que vocês a lessem ou mesmo assistissem o filme que têm no elenco a Julianne More e a Kristen Stuart nos papeis principais de mãe e filha e fizessem suas reflexões. Eu acho que no livro você consegue ter ainda mais uma dimensão do sofrimento que é perder tudo do dia para noite, de ter sua memória apagada em decorrência de algo tão severo. Alice começar a escrever nomes dos seus filhos em seu bloco de notas para não esquecer, grava até um vídeo para que quando as coisas tivessem mais graves ela tirasse a vida. Acho que a cena que mais me tocou foi, quando a doença já está avançada ela e o marido resolvem tirar férias na antiga casa de praia onde Alice cresceu e de repente ela fica com vontade de fazer xixi, mas como a memória vai ficando mais curta, ela simplesmente o que ia fazer e faz xixi na roupa, o marido a flagra e os dois se abraçam e começam a chorar. Nossa isso foi forte.

E a vida é feita de memórias, muitas delas foram interrompidas diante da pandemia desse ano ou mesmo diante de acidentes fatais, como a que minha mãe presenciou na estrada quando estava vindo passar o natal com a gente. Tudo é efêmero e isso não é segredo pra ninguém. A Alice disse o seguinte: toda a minha vida eu acumulei memórias – elas se tornaram de certo modo, os meus bens mais preciosos. E por favor, não pense que eu estou sofrendo, eu estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para ficar ligada a quem eu já fui. Então “viva o momento” e isso eu digo para mim mesma. É realmente tudo o que eu posso fazer, viver o momento. E você está vivendo ou só acumulando dias?

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