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Orgulhar-se: a história do movimento LGBTQIA+ na luta por direitos


Foto: Sextou com Platonyco, arquivo pessoal, 2020.



Orgulho, segundo o dicionário, é um sentimento de prazer, de grande satisfação com o próprio valor, com a própria honra. Aqui ele vai ser tratado como uma atitude moralmente positiva porque provoca no indivíduo o sentimento de satisfação pela sua capacidade, valor ou realizações sejam estas deste ou de outras pessoas. No domingo vimos uma grande celebração de um Orgulho de uma comunidade que relembrava sua história de luta e de preconceitos. Foi graças as essas lutas que gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, queers e todas as outras pessoas dessa comunidade desenvolveram o orgulho de ser quem são e da identidade que possuem como parte desse grande movimento que é o LGBTQIA+. Mas o que a história nos conta sobre esse movimento no mundo e aqui no Brasil? No episódio dessa sexta, 3 de julho, eu convidei o Prof. Jefferson Maciel, Historiador, Mestrando em História pelo Programa de Pós Graduação em História/PPGHIST da Universidade Estadual do Maranhão para nos contar um pouco mais sobre os recortes históricos da luta por direitos do nosso movimento. Seja bem-vindo Jefferson, eu queria começar te perguntando o que o Orgulho LGBTQIA+ significa para a nossa comunidade?

Prof. Jefferson: Bom, em primeiro lugar eu gostaria de agradecer ao convite do Platonyco por abrir esse espaço para conversa, para o diálogo, gostaria de agradecer aos ouvintes que estão disponibilizando-se a ouvir essa conversa e se inteirar mais sobre o assunto. Eu fui convidado pelo platônico para que nós pudéssemos dialogar, discutir sobre a população LGBT+ já que estamos no mês de junho que é o mês do orgulho LGBT+ essa conversa se torna imprescindível diante de todos os contextos do qual a população LGBT tem sofrido ao longo dos anos, porém acho de fundamental importância iniciar este diálogo explicando ou discutindo sobre o que seria orgulho. As pessoas perguntam por que que a palavra orgulho está associada ao orgulho LGBT+ e algumas pessoas até sugerem um possível orgulho heterossexual, o que não se explica. Acho que é muito importante que nós comecemos a discutir sobre o significado de orgulhar-se a população LGBT como um todo ao longo dos anos e da história da humanidade tem sofrido uma série de ataques de exclusão, de marginalização, de perdas e isso implica diretamente em também falar sobre resistência, sobre reinventar-se, sobre escolhas de novas possibilidades de existir. Esse orgulho do qual está imbuído sempre em relação à nossa população, vem dessas dores, vem sobre ressignificar essas situações de preconceito, de discriminação, de perdas. Então os significados sobre orgulhar-se é transformar as dores por prazer, né. Somos marcados pelo orgulho quando alcançamos o orgulho de ser uma pessoa LGBT é porque então alcançamos a aceitação de quem somos e não precisamos mais guardar aquilo para o mundo ou o que somos para o mundo. O produto disso é ganhar uma sensação de normalidade para si em consequência para o mundo e quando alcançamos isso praticamos algo que o Michel Focault, um dos teóricos que trabalham a sexualidade, conceitua por presentificação.

Presentificação, portanto, seria o ato o exercício de você revelar ao  outro aquilo que de fato você é diante de insultos, discriminação, preconceito, ou seja, você entrega ao outro o orgulho que você é diante de uma violência, diante de uma ridicularização, da injúria e mostra para o outro que aquelas acusações não fazem efeito e isso enfraquece a violência e gera uma consistência do orgulho. Portanto, passa pelo orgulho, pelo alcance de ter orgulho sobre ser o que é e a sua própria condição de existir a luta de toda a população LGBT. Presentificar como eu disse, é entregar para o outro que aquilo que ele considera anormal e tenta violar os teus direitos e liberdades individuais, você entrega para ele como não tendo esta força ou este poder. Em outras palavras seria, por exemplo, quando nós pessoas LGBT, passamos por diversas situações na sociedade, na escola, na família, na igreja ou em qualquer lugar nós somos xingados por diversas palavras de baixo calão, isso geralmente nos ofende e nos intimida, mas quando nós agimos de presentificada, nós mostramos pra essas mesmas pessoas, para esses acusadores, para esses que é preconceituosos de que isso não nos atinge, portanto, é um passo muito importante quando a população LGBT alcança o orgulho de si.

Tony: Muito bom você ter falado sobre esse conceito de presentificação porque no próprio Dia do Orgulho um jovem recebia insultos e agressões físicas de uma senhora que se dizia religiosa. É necessário cada vez mais nos presentificar em atitudes diante de situações como essas, principalmente porque são pessoas que baseiam seus preconceitos em opiniões e crenças pessoais. E por falar em crenças ainda vemos muito o discurso, principalmente de pessoas mais velhas, de que “no meu tempo não era assim”. Mas o que a história remonta?

Prof. Jefferson: Sabemos que a prática é homoerótica ou homoafetiva resguardados os devidos tempos desses conceitos não é algo atual. A prática sexual de pessoas do mesmo sexo, ela remonta desde a história da humanidade de origem, o que nos difere hoje é a nossa identidade tanto a identidade de gênero que é colocada aqui na população LGBT para pessoas travestis, transgêneros, transexuais e aqueles que se englobam dentro do + ou identidade sexual que são aqueles que estão incluídos nos indivíduos gays, lésbicas, bissexuais,. As práticas sexuais com pessoas do mesmo sexo em outros momentos históricos ganham outra conotação que não a conotação apenas afetiva, por muitas vezes não existia conexão afetiva ou laços afetivos entre as pessoas que praticavam o sexo por iguais. A diferença do homoerotismo reside justamente no laço afetivo em que você constrói com uma pessoa do mesmo sexo. Na Grécia antiga, por exemplo, a prática da pederastia aonde um homem mais velho tinha uma iniciação a um jovem da sociedade grega onde ele iria ensinar esse jovem (a gente chamava de neófito que era aquele que estava disposto a aprender diversas sabedorias populares, filosofias para a vida, uma construção de vida, para a cidadania, para o exercício das suas liberdades) então essa relação de Pederastias gera, portanto, um contexto completamente diferente de identidade sexual porque para você ser homossexual hoje você deve se entender enquanto homossexual e esse entendimento da identidade sexual, ela perpassa por diversos elementos que não apenas a prática sexual com pessoa do mesmo sexo em si, ela perpassa por elementos que vão sustentar uma identidade que vai passar pelo desejo, mas vai passar pelo gênero, mas também vai passar pela própria identificação, de troca de reciprocidade, de afeto. Portanto, essas conexões devem ter seus contextos para que nós possamos entender o que vem se transformando ao longo do tempo até para nós que somos homossexuais conseguirmos remontar aí as nossas práticas de identidade e práticas apenas sexuais, portanto, é portanto errôneo dizer que ele chama sexuais ao longo

portanto é errôneo dizer que existem homossexuais ao longo do tempo, mas também é errôneo considerar que não houve práticas sexuais semelhantes, os conceitos vão mudando ao longo do tempo até porque somos homossexuais, a partir de um confronto e conceituação externa e não parte de dentro do próprio coletivo LGBT+ que partilha dessas experiências.

Tony: Jefferson eu percebi que você faz a escolha lexical para a comunidade como homossexuais, mas sem tratar diretamente das orientações sexuais e de identidade de gênero. Provavelmente tem a ver com o contexto histórico do surgimento dessa palavra, né, e como já sabemos homossexualismo era um termo impregnado de conotações médicas e patológicas. Você poderia explicar um pouco mais sobre a etimologia ou origem dessa palavra?

Prof. Jefferson: E por que que eu estou falando homossexuais aqui e parece que eu estou desconsiderando todas as outras identidades sexuais e de gênero que estão englobados na sigla LGBT+? Porque nesses momentos anteriores nós não tínhamos essa compreensão, portanto, todas as vezes que eu estiver me remontando a um passado histórico é muito importante que a palavra homossexual seja compreendida de uma forma mais ampliada onde estão abarcadas todas as outras identidades sexuais e de gênero nessa mesma palavra. Então a palavra homossexual é uma conceituação que vem de uma categoria externa à categoria coletiva LGBT+, porque ela surge primeiro como uma tentativa de diagnóstico científico né, médico, para problematizar enquanto um comportamento doentio aonde vai então conotar uma ideia de doença, então a homossexualidade que hoje nós falamos antes foi considerada doença nas palavras de um homossexualismo, é a partir dessa concepção de que o nosso comportamento era considerado doentio é que se vai construir termos, mas antes de tudo isso nós tínhamos sodomitas, nós tínhamos almofadinhas, nós tínhamos frescos, nós tínhamos várias outras palavras para identificar um comportamento de práticas sexuais com pessoas do mesmo sexo. Em 1964 pela primeira vez é que esse termo é dito, então veja, 1954, tá gente, então já é no século 20 que é alcunhado esse termo e junto com esse termo vem todo uma conceituação que está impregnada dessa capacidade de diagnóstica enquanto comportamento doentio. Em 52 o homossexualismo é considerado doença e isso vai gerar diversos conflitos na nossa população LGBT+ no mundo. Isso vai tornar legítimo as violências ocorridas pela população LGBT+ cada vez mais porque isso dá um discurso de legitimidade de práticas de violência discriminatórias e preconceituosas à nossa população. Isso é muito importante para que nós possamos entender os próximos passos da homossexualidade ou da população LGBT+ no mundo e no Brasil.

Tony: Entre a comunidade LGBT o bar Stonewall Inn, em Nova York, era muito popular na década de 60. Mas em 1969 quem fosse gay ainda era criminalizado, né. Então como que a comunidade fazia pra se reunir mesmo nesse cenário caótico e em que momento estoura a rebelião que faz nascer o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+?

Prof. Jefferson: Então, portanto, a partir da década de 50 dos anos 20 a vida de homossexuais vão cada vez mais sendo de homossexuais (ressalvo o que eu falei sobre o conceito histórico), mas aqui a população LGBT+ se torna institucionalmente mais difícil até porque é considerado uma doença o homossexualismo, portanto, nos anos 50 foram marcados por uma grande perseguição homossexuais, né, principalmente nos Estados Unidos e aí nós vamos se remeter ao que nós estávamos falando antes sobre Stonewall. A revolta de Stonewall foi em 1969, mas é preciso remontar que os anos 50 foram marcados por essa grande perseguição aos homossexuais pessoalmente influenciados pelo marcatismo que é na verdade uma forma que foi encontrada para o anticomunismo pelo senador Joseph Mccarthy desculpem e ela foi se ampliando essa varredura na sociedade através daqueles que estavam subvertendo ordens, inicialmente o anticomunismo, mas que estava totalmente atrelada aí ao hábito à prática homossexual. Então, essa perseguição nos anos 50 vai prejudicar a sociabilidade da população LGBT+ até então homossexuais. Então isso motivava, não dava espaço para as sociabilidades dessa população que sempre, portanto, estava procurando de forma marginalizada espaços para que pudessem exercer suas identidades de liberdades individuais tanto sexuais quanto gênero, quanto identidade, da condição de existência. Essa população LGBT geralmente sempre migrava para os grandes centros, as grandes cidades. Estamos falando aqui nos Estados Unidos principalmente a cidade de Nova York que é onde acontece a Revolta de Stonewall. Então essa migração se dava muito por essa procura de espaços nas zonas muito mais urbanas de sociabilidades ainda que de forma um pouco marginalizada, excluída socialmente. Isso no Brasil não vai ser diferente apenas isso vai acontecer anos mais à frente. Então esses bares, essas boates, esses bailes, esses bares, esses bailes eles eram ruins pois não permitiam, de fato, esses espaços para toda essa população. Então é Stonewall justamente quando chega aí é aonde os homossexuais resistindo, lutando sempre à sua maneira apenas para existir já não conseguem mais dar conta e vão reivindicar os seus espaços de liberdade e isso acontece no bar em 1969 dentro desse contexto todo que eu estou falando para você, lembramos que temos a Guerra fria então ali no mundo, né, nós temos um grande problema acontecendo político-ideológico.

Então se revolta os homossexuais contra aqueles que não estavam mais permitindo que eles se expressassem, que eles conseguissem executar as suas atividades artísticas, as suas práticas sexuais, a sua cultura LGBT+ resguardando aqui o conceito. Então isso acontece como um estopim e quando isso acontece marca toda uma geração lembramos que nós estamos vindo de 1968, a primavera, né, então assim na França uma revolução de 68, essa é a palavra, que vai mudar profundamente todas as relações da sociedade ocidental como um todo. Então aí tanto a liberdade para as mulheres, a liberdade sexual, as drogas, é o aborto e todas essas outras questões que vão vir no feminismo, movimento negro, vão abrir os olhos de uma juventude e em 69 os homossexuais começam nos Estados Unidos, em Nova York, nesse bar o estopim e isso para o mundo serviu como referência. Então hoje em 2020, nós estamos comemorando 50 anos dessa, essa revolta é muito importante, porque foi a partir dessa revolta que nós começamos a existir politicamente para reivindicar e aí na prática da militância, na prática da resistência, na prática política da nossa população. Sabemos que a população LGBT+ ela é mista, ela tem suas pautas diversas reivindicações completamente diferentes, mas ela é muito importante lembrar da Revolta de Stonewall porque isso nos dá um fôlego para demonstrar historicamente de como que nós precisamos, para existir, brigar por isso. Reivindicar isso, revoltar-se para que nós possamos ser olhados, para que nós possamos ser assistidos socialmente. Então 51 anos depois nós estamos ainda comemorando, isso aconteceu no dia 28 de junho de 1969 nos Estados Unidos, na cidade de Nova York. E hoje nós estamos aqui celebrando sempre o mês do orgulho LGBT, isso dá origem as paradas gays, a parada do orgulho LGBT+, na verdade hoje transmutada e que é um misto, né carnavalesco porque também a nossa condição de sociabilidade para lazer é uma forma de discussão política, é uma maneira de reivindicação porque como nós estamos aqui dialogando, a nossa existência é sempre colocada em xeque e com ela nossas práticas de resistência. Então é muito importante a gente sempre relembrar da Revolta de Stonewall, claro que aqui a gente fez um apanhado sintético, simples para que nós possamos discutir.

Tony: Mas com relação ao Brasil, ele vivia em um momento ainda mais desfavorável para a comunidade LGBT, né?

Prof. Jefferson: Bom, então nós temos aí um modelo do que aconteceu em 1969 nos Estados Unidos. No Brasil, nós precisamos fazer um recorte para que possamos contextualizar, lembramos que estávamos em plena ditadura empresarial-militar no Brasil aonde os militares junto com a parcela da sociedade civil localizada entre empresários aqueles que tinham grande detenção da imprensa e etc, apoiaram tanto golpe de 64 quanto a constituição do regime ditatorial empresarial-militar a partir de 1964. Isso para gente já nos dá um panorama, um quadro do quanto que deveria ou foi ser homossexual (e aí lembre-se sempre do conceito de homossexual ampliado para a população LGBT+) durante esses 21 anos que durou a ditadura militar de 1964 até 1985, diante desse contexto nós temos em uma refração, o movimento homossexual brasileiro é retraído diante de todos esses mecanismos de coerção, de repressão que foi instaurado após 64 no Brasil. Então, nós temos um surgimento desse movimento similar ao movimento que já estava acontecendo desde 69 nos Estados Unidos apenas no final no começo da década de 80 no final da década de 70, ali por 1979, década de 80, aonde nós chamamos um período de abertura ou de redemocratização, que é o período onde há uma tentativa de enfraquecimento dos mecanismos mais agressivos da ditadura, isso não significa dizer que a ditadura estava acabando naquele exato momento, pelo contrário, existe permanência até hoje. Então isso nos dá um contexto para podemos localizar a luta homossexual, a luta da população LGBT+, então era muito difícil expressar, se ter a capacidade de ir e vir, a condição de existir, de se expressar, expressar sua identidade, suas liberdades individuais, suas liberdades de práticas sexuais porque nós éramos duramente reprimidos e os mecanismos de repressão, os aparelhos repressivos do Estado, eles eram montados tanto dentro de um aparato mais visivelmente do estado institucionalizado com uma polícia militar, por exemplo, mas também de uma forma coercitiva da população de que deveria nos coibir ou nos suprimir da sociedade civil naquele momento. Então moralmente, discursivamente éramos rechaçados sempre e nos realocados para margem dessa sociedade enquanto vigorou o regime.

Homossexuais duramente foram mortos assassinados, estuprados, torturados durante toda a ditadura militar, a Comissão Nacional da Verdade lançou um relatório em 2014 no governo da presidente Dilma aonde tem um eixo temático específico que se chama ditadura e homossexualidade para mostrar as atrocidades que aconteceram com a população LGBT+ durante o processo de ditadura militar. Em São Paulo existiam camburões específicos para recolher travestis nas esquinas, na noite, é claro que nos centros urbanos mais desenvolvidos, vamos dizer assim, economicamente, que é Rio de Janeiro, São Paulo, Minas gerais e no Nordeste talvez Recife, isso parece ser mais acentuado de uma percepção empírica, de uma de uma forma que a gente consegue perceber de uma forma mais rápido, mas isso não elimina e não significa dizer que, por exemplo, no Maranhão e nos outros estados do Nordeste e do Norte não aconteceu essa repressão muito antes, pelo contrário, quanto menos registro se encontra mais dúvidas e mais tentativas de perceber do que realmente aconteceu nós temos que ter porque isso significa que muitos de nós fomos torturados, violados e não temos registro disso, por isso é muito importante pesquisas históricas que remontem ou que recuperem essa parcela porque isso dará hoje ao movimento LGBT+ legitimidade de discurso histórico para reivindicação das suas causas e aí de todos os âmbitos assim como a construção de políticas públicas que possam nos inserir socialmente e fazer uma reparação histórica inclusive nesse processo tão tenebroso que nós passamos durante a ditadura empresarial-militar neste país. Faz-se necessário, então a gente aqui remontar que todo esse sofrimento em que nós passamos durante a ditadura atrasou ou retardou a nossa expressividade na sociedade, então quando você vai remontando nossas práticas sociais enquanto população LGBT+, você vê que nós não tínhamos representação política, nós não tínhamos representação artística, nós não tínhamos representações no mundo do trabalho porque nós éramos excluídos de todos os espaços inclusive, e principalmente, os espaços de poder por que éramos considerados aqueles que iriam trazer uma degradação moral à sociedade e aí dá pôr fim a família e blábláblá do que nós estamos cansados de ouvir sobre a moral e os bons costumes nessa sociedade.

Então esse histórico aí que perdura há 21 anos aqui vai retardar esse processo e o movimento homossexual brasileiro começa a surgir aí com alguns elementos como o jornal Lampião de Esquina que surgiu em 79, mas dura pouco termina já ali na década de 81 por aí outros. Mas existem uma gravação muito disseminada de movimentos que vão tentar reivindicar ou pelo menos dar voz a nós que éramos reprimidos, torturados e etc. como eu já citei, isso não implica em dizer que havia uma inexistência dessa tentativa de resistir muito antes, pelo contrário, a nossa forma de organização é que ainda não era uma forma muito sólida dado devido ao que eu acabei de falar para vocês do contexto de perseguição à nossa condição de existência. Então na década de 90 aonde nós já temos aí um período democrático instaurado é que há um movimento homossexual, e ainda com essas palavras, vai na verdade existir.

Eles vão então se organizando aí nessa década de 90, retomando, muito melhor porque aí nós temos mais aí uma liberdade de expressão e mal ou ruim, vamos dizer assim, nós vamos conseguindo ganhar mais espaços de uma forma mais artística, mas ainda de uma forma muito caricata, de uma forma ainda muito aceitável como se nós fossemos domesticados pela heterossexualidade e servimos apenas a uma função social que é de fazer rir ou no mundo do trabalho, por exemplo, aonde cabia apenas o mundo da beleza ou o mundo entre muitas "artístico” até certo ponto. E isso também prejudica hoje, explica muito dos processos hoje de falta de inserção de homossexuais nas universidades, falta de inserção dos homossexuais no mundo do trabalho, falta de inserção de homossexuais no mundo da política aonde nós temos pouquíssimo a representação política, falta de inserção dos homossexuais em todos os espaços. Existem elementos que circundam a vida de uma população LGBT+ como é o bullying na escola, como é o não acesso ou não conseguem, por exemplo, como é o caso das transexuais, travestis, transexuais masculinos do não acesso à educação, então não conseguem angariar um curso superior ou não serem inseridos no mercado de trabalho e isso prejudica as condições de vida dessa população e que relega ou resguarda ela apenas a opção, como eu te falei se toma cabeleireira, do mundo artístico ou a prostituição que é uma vida dura para nossa população LGBT+. Isso precisa ser muito mais discutido e problematizado porque implica em diversos elementos que vão circundar a nossa vida. As pessoas querem nos coisificar como se nós fossemos animais e que nós somos condicionados a nossa sexualidade e identidade de gênero, mas nós não somos isso. Nós somos seres humanos e que desempenhamos diversas funções sociais, nós somos filhos, nós somos pais, nós somos irmãos, nós somos cunhados, nós somos profissionais, nós somos tudo que nós queremos e podemos ser iguais a todo mundo. Isso deve ser muito levado em consideração é porque isso não nos reduz socialmente a uma prática afetiva-sexual de identidade aonde a sociedade tenta fazer para que isso possa ser um um processo de deslegitimidade da nossa existência em si. Perceba que eu sempre falo a palavra existência porque quando é marcado dessa forma nós vemos que é uma marca profunda.

Tony: Estamos no país que mais mata pessoas LGBTs, é uma morte por homotransfobia a cada 26 horas registradas no ano passado, segundo dados divulgados pelo Grupo Gay da Bahia. Então orgulhar-se, além da presentificação como você falou é um ato político frente a padrões heteronormativos e homotransfóbicos que ainda tentam nos dizimar.

É uma marca profunda da perseguição à nossa população, é um misto de machismo com o preconceito em si, a discriminação e etc. Então orgulhar-se como eu iniciei a fala é muito importante porque você resgata toda essa memória, você resgata toda essa luta que nós estamos aqui passando em linhas gerais, em pano gerais e quando nós conseguimos ter orgulho daqueles que foram por nós, ter orgulho daqueles que lutaram por nós e que nós podemos também ser uma voz na nossa atualidade para que aqueles que virão também tenham orgulho de si, nós compreendemos o conceito em si. Nós compreendemos da forma mais dura que é a forma empírica, a forma do sentido, viver, da experiência do indivíduo e nós homossexuais temos essas experiências ao nascer porque todos nós ao nascer enfrentamos conflitos, sejam conflitos pessoais de uma auto aceitação aonde a gente tá o tempo todo fazendo o exercício de se comparar com comportamento dos outros e que a gente não tem representatividade nesse mundo e, portanto, nos sentimos completamente alheio a ele, anormal e isso já implica em diversos processos psicológicos muito difíceis mas também caminhamos para uma aceitação familiar porque é do círculo menor para o círculo maior e essa aceitação familiar também acontece de uma forma muito difícil porque diversos homossexuais são expulsos de casa, diversos homossexuais são torturados em suas famílias, são violentadas em casa, são agredidos na escola, nas suas sociabilidades e que isso se estende socialmente (porque eu falei da escola que ela geralmente o primeiro o primeiro acesso que nós temos fora do núcleo familiar). Então quando nós nascemos, nós já enfrentamos diversas adversidades sociais diferente de um heterossexual aonde ele nasce num mundo onde é representado em todas as instâncias da sociedade e onde ele não tem conflitos psicológicos ou pessoais, porque ele consegue fazer essa identificação, e muito menos em um conflito familiar que ele está ali na verdade desempenhando um papel que já é padrão. Então essa padronização de comportamentos sexuais e de identidade de gênero é o que nos prejudica, então os homossexuais vivem ou experenciam isso desde sempre. E é isso que nós temos que entender que somos guerreiros, guerrilheiros para a luta e para causa. Então há motivos para que nos orgulhamos de nós, de quem somos e possamos nos unir, se levantar, resistir, enfim, ter orgulho e gritar para o mundo que nós existimos sim e que nós queremos respeito, a partir do momento que nós estamos nesta vida e queremos acesso a tudo o que temos direito.

Tony: E o que mudou de lá pra cá? Quais conquistas e principais desafios da comunidade LGBTQIA+ no Brasil e no mundo você poderia destacar?

Prof. Jefferson: Bom, eu não podia terminar, portanto, em considerar que para nós hoje existem diversos avanços como a tentativa de criminalização da homofobia e da transfobia, LGBTfobia, Lesbifobia, a regularização da união civil entre pessoas do mesmo sexo assim como agora recentemente a permissão, veja a palavra permissão para doação de sangue, mas ainda diversos outras reivindicações sociais para a população como um todo precisam ainda muito do nosso suor e do nosso sangue, da nossa fala. E para isso nós precisamos ocupar todos os espaços, ocupar os espaços de poder, ocupar os espaços representativos ocupar os espaços familiares, a partir dessas ocupações que nós vamos conseguindo mudar a sociedade como um todo e de que eles precisam compreender que nós existimos. A parada LGBT é importante porque é um dia em que as pessoas param para ver quantos milhões nós somos e de que nós existimos, nos divertimos e que somos os filhos de alguém, que nós temos famílias e que nós temos emprego, que nós desempenhamos diversos papéis sociais e somos como todo mundo, e que nós estamos ali felizes, alegres celebrando a nossa vida e a nossa existência. Algumas pessoas tentam desqualificar a parada LGBT+ tentando dizer que é apenas um carnaval de rua. Sim! Carnavalizar é uma forma de protestar! Porque é uma forma da gente poder dizer que nós também podemos nos divertir, que nós ocupamos a rua também e que nós podemos nos beijar na boca também, que nós podemos fazer qualquer coisa que nós quisermos também, nos vestirmos da forma que quisermos também na rua, aonde nós passamos sempre o ano inteiro, diversos anos de nossas vidas sendo reprimidos, mandando que a gente fique para dentro do batente da nossa casa aonde nós não temos essa ação política do ir e vir de uma forma mais com liberdade. Então esse discurso tenta desqualificar uma ação política que é a própria carnavalização dentro do da parada LGBT+.  Então, portanto, que prossigamos aqui na luta, prossigamos nos informando.

Tony: Quando falamos em orgulho, é sobre olhar para tudo isso que você falou e querer continuar lutando, é, mesmo nesse período de quarentena defender os nossos direitos seja postando nas redes sociais ou dialogando com a família e amigos a luta que enfrentamos todos os dias de cabeça erguida. É peitar sempre bb! Jefferson eu queria agradecer imensamente a tua participação, por nos apresentar esse recorte histórico da luta do movimento LGBTQIA+. Foi TUDO!

Prof. Jefferson: quero novamente agradecer a oportunidade de discutir, aos ouvintes que ficaram ouvindo até agora ao Platonyco por esse convite maravilhoso e deixo aqui registrado em aberto para que nós possamos abordar diversos outros assuntos. Nunca se esqueçam que a nossa condição de existência sempre é um ato político para qualquer circunstância da nossa vida e nós população LGBT+ devemos orgulhar-se de si.

Tony: A transcrição desse episódio você encontra em http://platonyco.com. O Sextou com Platonyco agora faz parte da #LGBTPodcasters. Acesse http://www.lgbtpodcasters.com.br e conheça outros podcasts produzidos por LGBTQIA+. E pra você que nos ouviu até aqui, lembre-se sempre: Ninguém vai poder querer nos dizer como amar! Até sexta que vem! Cheiro!

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Fale com o Prof. Jefferson Maciel: macieljeff@gmail.com / Instagram @jeffmaciell

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Episódio anterior: Histórias dos bastidores do Miss Gay (feat. Dominica)

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