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Enfretamento ao Racismo (feat. Prof. Leandro Costa)

Foto: Enfrentamento ao Racismo, Leandro Costa. 2020



Sexta feira, 12 de junho de 2020, finzinho de mais uma semana, que mais uma vez foi tensa e que seguiu com os protestos antirracistas ao redor do mundo. Em meio à pandemia, as pessoas seguem se mobilizando, à sua maneira. Eu comentei recentemente que nós temos a tendência de tentar apagar aquilo que nos fere ou feriu quem a gente ama. Para algumas pessoas é mais fácil fingir que o assunto nunca existiu, mas pra outras fica marcadas desde sempre. Porque elas perdem alguém, porque uma filha perde seu pai quando vai ao supermercado ou uma mãe perde seu filho enquanto está trabalhando.

No episódio de hoje convidei Leandro Costa que é professor da Faculdade Santa Terezinha - CEST, é doutorando em ciências sociais pelo PPGCSOC-UFMA e membro do grupo de estudos Lutas Sociais, Igualdade e Diversidade (LIDA-UEMA). Formado em Ciências Sociais pela UEMA e mestre em Ciências sociais pela UFMA, é professor das áreas de Sociologia e Antropologia pra explanar um pouco mais sobre o racismo. Seja bem-vindo, Leandro!

Foto: Prof. Leandro Costa, arquivo pessoal. 2020

Prof. Leandro: saudações sociológicas a todas e todos, agradeço muito ao Tony pelo convite, considero essa pauta urgente e espero poder contribuir para que a gente consiga compreender melhor a profundidade da questão racial no nosso país e espero poder contribuir a partir dessa nossa reflexão, dessa nossa conversa com a luta antirracista.

1)      Bom, antes de mais nada eu queria agradecer ao Adeilson por ter ajudado nessa ponte de diálogo contigo Leandro. Primeiro, eu gostaria que você começasse falando um pouco sobre a definição de racismo e os seus tipos.

Prof. Leandro: então Tony, sobre essa sua primeira pergunta eu gostaria de começar citando o livro Racismo Estrutural, do Sílvio Almeida, em que ele define racismo como uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento e que se manifesta por meio de práticas inconscientes ou conscientes que produzem desvantagens ou privilégios pra indivíduos de acordo com o grupo racial a que eles pertencem ou a que eles são identificados. Então, essa é uma definição que o autor apresenta no livro, e aí a gente pode passar para tipos de racismo. Ele em três tipos de três concepções de racismo: uma concepção individualista, liberal de racismo, uma concepção institucional e uma concepção estrutural. Do ponto de vista, a primeira concepção de racismo dentro de uma lógica individualista liberal, nessa perspectiva o racismo se reduz a preconceito ou discriminação como, por exemplo, a construção de estereótipos negativos para negros e negras, o estereótipo do negro violento, o estereótipo do negro bandido, são exemplos que poderíamos dar, ou, então, a discriminação é um exemplo que se enquadra dentro dessa perspectiva liberal no tratamento diferenciado a membros de grupos racialmente identificados. Tudo isso se encaixa dentro dessa primeira perspectiva, mas só que existe outras duas perspectiva sobre o racismo como eu já falei e a segunda delas é o racismo institucional, essa primeira expectativa, ela reduz o racismo a uma perspectiva individualizante, o que o Silvio de Almeida vai mostrar que o racismo é muito mais amplo do que isso essa perspectiva individual. O que ele chama de racismo institucional e quando há uma hegemonia, uma predominância de um grupo racial em instituições, por exemplo se a gente pensar a realidade brasileira, nós vamos encontrar que sujeitos racialmente brancos têm domínio simbólico e o domínio inclusive estatístico. Eles são maioria nas instituições políticas no congresso, eles são maioria nas grandes empresas e nos cargos de chefia, sobretudo, eles são maioria nas grandes universidades do país, nas posições acadêmicas mais consagradas, eles são maioria dos escritores, poetas, dos músicos consagrados, dos YouTubers e etc. Então a gente pode dizer que há um processo de racismo institucional que vai colocando indivíduos brancos nesses lugares de poder né, e esse processo faz com que se reproduza privilégios para grupos, no caso, grupos brancos, e desvantagens para grupos raciais, no caso, negro.  Então além desses privilégios e desvantagens que vão sendo reproduzidos por meio das instituições, nessa noção nós temos a normatização e às vezes a institucionalização dos interesses e dos padrões do grupo que domina as instituições. Segundo Silvio Almeida, há só omissão da instituição quanto à dimensão da desigualdade racial já basta para que se reproduza o racismo, tendo em vista que o racismo está enraizado na sociedade e aí, a gente já pode passar para terceira definição que é a definição de racismo estrutural. Na perspectiva do Sílvio, racismo estrutural implica na forma como a ordem social está organizada, ou seja, nossa sociedade se organiza a partir da lógica racista, isso não é uma exceção da nossa sociedade, é uma regra da nossa sociedade. Nessa perspectiva estrutural não se precisa de intenção racista para que o racismo se manifeste, exemplos disso é quando populações inteiras estão submetidas a ausência de saneamento básico, de sistema educacional e de saúde de qualidade, à sub empregos, à violência racial, à violência policial cotidiana, ao encarceramento em massa, à pobreza generalizada, ou seja, esse é o quadro social mais amplo da população afro-brasileira e essas desigualdades materiais e simbólicas, fazem parte do que nós estamos chamando de racismo estrutural. Perceba que isso é forma como a sociedade se organiza criando uma desigualdade profunda para esses grupos.

2)      Segundo Silvio Almeida, o racismo estrutural se apresenta (ou provém) de três subdivisões na sociedade, a saber, política, econômica e subjetiva. Comente, exemplificando de que forma ele se dá em cada uma dessas configurações.

Prof. Leandro: Bom Tony, eu vou tentar falar de uma forma sintética e exemplificada cada como é que Silvio Almeida relaciona racismo com processos políticos, com processos econômicos e o que você chama de subjetivo e pode chamar também de processos ideológicos. Primeiro a relação entre racismo e política, para entender isso é preciso entender o lugar do estado na produção do racismo brasileiro. O estado colonial brasileiro foi escravocrata por 388 anos até 1888. Depois a gente pode citar dois principais exemplos históricos sobre isso que eu considero que é nos anos 30 a “Era Vargas”. Ela oficializa a tentativa de embranquecimento da população brasileira, acreditando que a raça branca é superior, que é o que dizia as teorias racionalistas europeias do século 19 e através disso, o estado brasileiro traz imigrantes europeus para trabalhar, pagando a viagem desses imigrantes, dando emprego, concedendo terras a alguns, ou seja, isso é feito enquanto os ex-escravizados não tiveram nenhuma compensação histórica pelos mais de 300 anos de escravidão. Outro exemplo histórico importantíssimo é a ditadura militar que começa em 1964 e vai aí até um pouco antes da constituição de 88, onde o estado brasileiro nega a existência do racismo e adota a ideologia da democracia racial, uma ideia falsa mito de que no Brasil há uma convivência harmoniosa entre as raças. Esse mito que produz a negação do racismo contribui para o racismo continuar se reproduzindo cotidianamente, então até a Constituição Federal de 1988, cem anos após a abolição, o estado brasileiro não só não combateu o racismo, como foi um dos agentes que contribuiu decisivamente para aprofundar o racismo e a desigualdade racial. Agora na relação entre racismo e ideologia que é o segundo ponto que eu queria destacar aqui, eu queria dizer que existe uma construção ideológica do racismo, ou seja, para a estrutura social racista funcionar, para nossa sociedade funcionar de forma racista, as pessoas precisam naturalizar o racismo. Mas precisam não o perceber por completo, elas precisam torná-lo normal, então o racismo na sociedade brasileira molda o consciente e o inconsciente. O próprio imaginário coletivo da nossa sociedade racista é produzido todos os dias, por exemplo, pelos meios de comunicação que produzem estereótipos sobre negros, pela indústria cultural, filmes, livros, teatros que são protagonizados por branco e tratam de brancos pelo sistema educacional que é eurocêntrico, que nos faz acreditar que o mundial e o geral, o universal na Europa, por exemplo, nós chamamos de história geral, um setor da história que basicamente trata da história europeia, o sistema de justiça também nosso sistema de justiça é seletivo, é racista e condena sistematicamente negros e pobres né então tudo isso vai construindo uma ideologia que vai justificando e naturalizando o racismo. Por fim, queria falar sobre o racismo e economia que é o terceiro ponto e eu tenho duas coisas para falar sobre a relação entre racismo e economia, que tá no livro do Silvio Almeida. Primeiro a ideologia da meritocracia no Brasil é uma ideologia racista, porque nós estamos numa sociedade em que há uma profunda desigualdade racial e essa desigualdade racial cria condições e possibilidades radicalmente desiguais para pessoas diferentes, então quando a gente fala mérito, a gente está falando na verdade em privilegiar pessoas que têm condições, que  têm possibilidades e isso implica em eliminar negros e pobres porque eles foram historicamente desassistido pelo estado brasileiro e porquê eles foram colocados numa situação de pobreza, de miséria, justamente por conta dos mais de 300 anos de escravidão. O segundo ponto é que o neoliberalismo, essa ideologia econômica que prega a privatização e terceirização, a desregulamentação do trabalho, o fim de direitos trabalhistas, isso não cria empreendedores. Isso cria ou acentua, radicaliza a pobreza ou a miserabilidade de pessoas que já vivem em péssimas condições de vida, um exemplo disso, contemporâneo, são os entregadores que trabalham por via aplicativo que não tem direito nenhum, não tem férias, 13º (salário), auxílio de saúde, não tem nada, enfim eu acho que esses elementos explicam a relação que o Silvio Almeida faz do racismo com política, com ideologia e com economia.

3)      O caso recente do menino Miguel, morto ao cair do 9 andar de um prédio, revela, dentre outras coisas, a política desigual com as trabalhadoras domésticas. Nesse caso, a gente também vai perceber que as mulheres negras lutam à margem da lei por reflexo desse mesmo racismo estrutural.

Prof. Leandro: sem dúvida, Tony, sem dúvida tem total relação com esse racismo estrutural, mas se você me permite eu gostaria de responder essa sua pergunta a partir não da perspectiva do Sílvio Almeida, mas da perspectiva da Lélia González, foi uma intelectual negra, brasileira, feminista, militante dos movimentos negros e dos movimentos feministas. Ela escreveu um texto fantástico intitulado Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira e eu acho que esse texto da Lélia nos permite interpretar essa terrível morte do Miguel. Bom, a Lélia nesse texto ela fala, dentre outras coisas da empregada doméstica e aí para explicar a figura da empregada doméstica, ela retoma uma figura do período da escravidão, a figura da mucama. A mucama, ela cita o dicionário Aurélio pra definir a mucama como a escrava negra de estimação que auxilia nos serviços caseiros. Então na perspectiva da Lélia, a doméstica surge a partir dessa figura da mucama. A Lélia chama a doméstica de a mucama permitida, aquela que carrega o peso de sua família, o peso de outras famílias, já que seu marido, seus irmãos, seus filhos são frequentemente vítimas da violência policial cotidiana, sistema que os mata e o sistema seletivo e racista que os encarcera. E aí é impossível não lembrar de João Pedro, também um outro exemplo, garoto negro de 14 anos que foi morto dentro de casa durante uma operação policial violenta no complexo do Salgueiro em São Gonçalo, Rio de Janeiro. O que a gente pode pensar a partir desses dois casos e a partir do texto da Lélia é que a naturalização do lugar da doméstica como sendo um lugar da negra e das violências simbólicas materiais e corporais que essas mulheres recebem ao longo da vida e a banalização da violência contra negros são parte do mesmo processo do racismo ou que forma o racismo brasileiro. A morte ou as mortes de Miguel, a morte de João, elas reafirmam inclusive a naturalização dos lugares sociais reservados a negros e brancos no Brasil. O lugar de branco é em belos edifícios onde o Miguel morreu, né. Lugar de negro é em invasões, em cortiços, é nas favelas onde o João Pedro morreu, né. Mas essas mortes também mostram que onde os negros estão está a violência. A violência é estrutural. A violência é uma dimensão estrutural, está relacionada com a sociedade brasileira e está diretamente relacionada com o racismo. O jovem negro que tá na periferia, ele morreu em casa, o João Pedro morreu em casa, não na casa dele, mas dentro de uma outra casa. E a criança negra que tá no bairro de elite também morre dentro de um lar, né. É então nós estamos num processo de violência  profundamente enraizado e essa mulher negra, por exemplo, ela não tá sendo violentada só fisicamente né, nós estamos no meio de uma pandemia, né, então a mulher negra é violentada simbolicamente por não poder estar em casa durante uma pandemia que é uma violência política, já que a política está legitimando isso, não garantindo a essa mulher negra condições para ficar em casa. A doméstica também muitas vezes é violentada sexualmente no Brasil, tem uma série de pesquisas, relatos sobre isso enfim o fato é que a empregada doméstica não é vista como mulher, ela não é vista como mãe, ela não é vista como alguém, como pessoa que tem direito a família ou cuidar do seu filho, a preocupação com seu filho ou que tem afeto para com uma criança. Ela é vista como mucama, ela é vista pela ótica escravocrata, por essa perspectiva que ela é vista como não-humana, como objeto que serve para servir brancos ricos nesse país. Eu acho que o texto da Lélia é o que nos permite chegar a essa interpretação, eu fiz uma interpretação dessa, eu escrevi uma pequena nota sociológica no meu Instagram e eu sugiro que quem quiser e quem puder, vai lá e leia a nota né. Onde eu explico exatamente isso que eu tô falando sobre esse caso. E só para controle não se trata de casos individuais, isolados, por exemplo, em relação as empregadas domésticas no Brasil, nós temos mulheres que te fato como você colocou na pergunta vivem a margem da legalidade, apesar de ter uma lei das empregadas domésticas desde 2015, mas a maioria vive na informalidade, a maioria absoluta é negra. Enfim, não é um caso individual é caso estrutural, um caso que as estatísticas apontando para uma regularidade de um lugar social extremamente desprivilegiado.

 

4) A onda de protestos contra violência racial eclodiu após o assassinato de George Floyd, um homem negro, por um policial branco nos EUA. Logo os protestos se espalharam pelo mundo, chegando até o Brasil. No episódio anterior, recebi alguns amigos para comentar a importância do #BlackLivesMatter e eu queria saber de você agora o que esse movimento significa na luta contra a violência racial nos EUA, no Brasil e no mundo.

Prof. Leandro: bom para falar disso Tony, eu gostaria de citar o livro Pequeno Manual Antirracista da filósofa Djamila Ribeiro, inclusive indicar a todos e todas a leitura desse livro. A autora mostra que a partir desse livro, dentre outras coisas, que o Brasil é um país violento. Entre 2007 e 2018, o Brasil assassinou ou foram assassinados no Brasil, 553 mil pessoas, isso é mais do que assassinatos na Síria, por exemplo, onde há uma guerra civil há 7 anos. Dentre esses assassinatos 71% são negros sendo que negros são 55% da população, os dados apontam que um jovem negro é morto a cada 23 minutos no Brasil e que o Brasil teve pelo menos 5800 pessoas mortas por policiais em 2019, por exemplo. A título de comparação, isso é cinco vezes mais do que a média dos Estados Unidos que é mais ou menos de 1000 mortos por policiais anualmente. Então diante dessa realidade que é extremamente violenta, o #BlackLivesMatter nos EUA e o #VidasNegrasImportam no Brasil são reações à brutalidade racista, sistemática a que negros e negras são submetidos cotidianamente e isso ao longo da história. Agora, obviamente a reação dos Estados Unidos é muito mais brutal por conta do tipo de racismo que se construiu por lá. O Kabengele Munanga, importante intelectual negro brasileiro, brasileiro-congolês no livro Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, ele chama o racismo estadunidense de racismo diferencialista, ou seja, segregacionista que efetivamente segrega, exclui, separa. Mas ele também afirma que isso seria a possibilidade da construção de identidades raciais fortes no Estados Unidos, né, por isso, para servir uma grande adesão as manifestações de cunho racial nos EUA. Obviamente isso é só uma parte da explicação em que os processos precisam ser explicados. No Brasil nós tivemos uma outra lógica, outros tipos de ideologia racial. Nós tivemos a ideologia da mestiçagem, a celebração de uma nação mestiça o que implica também uma nação que buscou se embranquecer, buscou a mestiçagem pra se embranquecer ou para negar a negritude, então o racismo brasileiro apostou, diferente do racismo estadunidense, uma aposta na mistura como forma de embranquecimento e foi isso que produziu uma série de designações para fugir da negritude: mulato, pardo, mestiço, morena etc. Quem fala também sobre isso é Abdias do Nascimento, importante intelectual, militante negro brasileiro no seu livro O Genocídio do Negro Brasileiro, ele disse que toda essas designações se referem a "homens de cor ou descendentes de africanos, ou seja, negros. Mas por conta de todos esses processos no Brasil, na realidade brasileira, muitos negros não se reconhecem como negros e por tanto muitos não se sentem violentados racialmente e coletivamente pela morte de jovens e crianças negras no Brasil, como foi o exemplo que já citamos do Miguel e do João, parte da explicação da relação #BlackLivesMatter e do #VidasNegrasImportame e dos tipos diferentes do racismo que estruturaram e desenvolveram no EUA e no Brasil.

5)      Leandro, nesse sentindo as cotas são uma reparação histórica, né? E por que as pessoas devem parar de afirmar que o racismo contra brancos ou racismo reverso existe?

Prof. Leandro: Começando pela questão das cotas, Tony, sem dúvidas cotas são uma reparação histórica. A dívida histórica do estado com a população afro-brasileira é gigantesca. Citando novamente o livro Pequeno Manual Antirracista, a Djamila vai nos lembrar que a lei de cotas é de 2012 nas instituições federais e que ela representou uma grande vitória para movimentos negros e afro-brasileiros em geral. Ela afirma que em 2018, 51% dos estudantes em instituições federais eram negros e 64% cursou o ensino médio em escolas públicas e 70% vêm de famílias com renda mensal de até um salário mínimo e meio, obviamente nós precisamos questionar as falhas e as fraudes no sistema de cotas justamente visando o aperfeiçoar para evitar esse tipo de coisa que vem acontecendo e precisamos também problematizar sobre esses cursos que os estudantes estão entrando, quais os recursos e estruturas que estão indo para esses cursos e quais são as condições de inserção no mercado de trabalho dos estudantes formadas nesses cursos. Bom ainda assim há algo muito importante, a Djamila lembra que conta não tem relação com capacidade, mas sim com oportunidade de condições. Esse é um debate importante porque como nós já vimos, a meritocracia em um país de profunda desigualdade racial e de quase 400 anos de escravidão é uma lógica profundamente racista. Então, não existe competição de um jovem negro periférico, que trabalha o dia todo e estuda numa escola pública à noite com um jovem de classe média, branco que escola privada, que tem as melhores estruturas, as melhores condições, excelentes professores em excelentes condições bem remunerados e que além da escola ele tem um ballet, ele tem o judô, a natação, teatro, dança e uma série de outras coisas que potencializam as habilidades e capacidades estudantis. Mas voltando aqui para a Djamila, ela cita dados importantes que desfazem alguns mitos sobre as cotas, por exemplo, desempenho dos cotistas é similar ou superior a não cotistas e a evasão de cotistas é menor, mas as contas, é bom lembrar, não as únicas políticas afirmativas. A gente precisa lembrar e lutar para que a lei 11.645 de 2008 seja efetivada na prática e, de fato, seja ensinado nas escolas sobre a história, cultura e religião afro-brasileira e indígena. Isso é extremamente importante inclusive para a gente retirar a branquitude no lugar de centralidade e para desfazer uma série de preconceitos históricos que estão arraigadas na nossa sociedade. Aliás, eu lembrei novamente do livro do Abdias, que eu já citei Genocídio de Um Negro Brasileiro, em que na conclusão ele reivindica compensações para o povo negro muito mais profundas, por exemplo, em termos de moradia, em termos de terras, ele afirma inclusive que esses recursos tem que vir da agricultura, do comércio, da indústria que são setores que enriqueceram explorando o povo negro brasileiro, pedido inclusive pelo tamanho da dívida histórica do estado brasileiro com a população negra deveria ter uma renda básica universal de pelo menos um salário mínimo para todo o povo negro e para finalizar sobre racismo reverso, o Sílvio Almeida fala sobre isso, ele diz que não é possível existir racismo reverso porque grupos raciais subalternizados, excluídos, não têm como impor desvantagens sociais a grupos dominantes. Eu diria que nem simbolicamente é possível falar em racismo reverso já que os traços físicos que foram estigmatizados, inferiorizados, negativados foram os traços da população negra: o cabelo, o nariz, a boca, a pele e o corpo tudo isso foi alvo de estigma, discriminação e preconceito sobre todos esses traços há um tom pejorativo que é percebido, por exemplo, quando todos riem de uma piada quando você cita qualquer um desses traços. Já os traços brancos nem é possível tentar construir uma imagem negativa de cabelo liso, de lábios e nariz finos, por exemplo. Não dá porque os traços que tem uma imagem negativa socialmente foram os de quem foi escravizado.

6)      Sabemos que a mudança para uma sociedade antirracista começa pela mudança de vocabulário e se desenvolve a partir de atitudes de enfrentamento ao racismo. Como o homem branco pode contribuir para uma sociedade que respeite a população negra.

Prof. Leandro: Tony você começa falando sobre linguagem e, de fato, o racismo está nas palavras esse também é um dos efeitos do racismo estrutural. Ele estrutura a nossa linguagem por isso muitos de nós reproduzem palavras racistas sem saber. Vou dar aqui alguns exemplos de termos racistas: meia tigela, quando um escravizado não conseguia completar o seu trabalho, recebia só a metade da sua alimentação; mulata é um termo que remete ao cruzamento de dois animais formando um animal híbrido; da cor do pecado, tem a ver com a hipersexualização da mulher negra, nessa ideia de que a mulher negra é fácil, a ideia do desejo pelo sexo com a mulher negra, que tem a ver com o racismo, com a escravidão, com a estrutura de estupros que foi um dos elementos muito fortes da nossa escravidão; negro de traços finos  como se os traços de pessoas negras fossem feios naturalmente né, mas se uma negra tem traços próximos com os traços brancos isso significaria beleza; tem outros, né, cabelo ruim, serviço de preto, denegrir, mercado negro, magia negra, ovelha negra todos esses são termos racistas que nós precisamos nos livrar já que eles são carregados de um sentido social negativo e contribui para a naturalização do racismo e pra destruição da autoestima de pessoas negras. Agora passando para a questão da contribuição do branco na luta antirracista, eu queria citar novamente o livro da Djamila em que o racismo deve ser uma pauta de todos e todas, algumas formas de contribuir com isso são: se informar sobre o racismo, precisa estudar, precisa se informar, é preciso ler sobre essa temática, questionar a ausência de pessoas negras em instituições e em lugares de destaque, em bibliografias de cursos, como protagonistas no audiovisual e não é só uma questão de representatividade de ter alguém negro ou negra lá representando, é uma questão de proporcionalidade também, nós precisamos não só tem uma pessoa negra lá representando, precisamos ter proporcionalmente pessoas negras em instituições já que negros e negras são mais da metade da população brasileira. Então a branquitude, ela precisa reconhecer os seus privilégios e utilizá-los a favor da negritude, o racismo é uma problemática branca a Grada Kilomba, uma grande intelectual negra, provoca nesse sentido, o Guerreiro Ramos já tinha colocado isso nos seus escritos. Então, nesse caso, o branco mesmo que ele não seja diretamente racista é privilegiado pela lógica racista do mundo. Isso não é pra se culpar, isso é para se responsabilizar e agir. Isso é para, por exemplo, ir para a linha de frente das manifestações sabendo que no momento do confronto a polícia tende a não agredir pessoas brancas, isso é pra se reunir com os pais da escola e exigir o cumprimento da lei 11.645, exigir o ensino da história, cultura e religião afro-brasileira e indígena nas escolas. Isso é para abrir espaço para negros em editoras, nas músicas, nos romances, na poesia, na ficção, nas redes sociais. Enfim, ler autores e autoras negras, divulgar autores e autoras negras, apoiar e lutar por política de cotas e ações afirmativas na educação e no trabalho, questionar o racismo recreativo, o racismo que aparece em piadas em programas de humor e todos os estereótipos negativos sobre o negro, aliás, proveito para indicar o livro Racismo Recreativo do Adilson Moreira que é um livro fantástico e fundamental pra gente pensar mais uma dimensão do racismo, mais uma vez relacionado com isso a meritocracia é uma farsa porque brancos não tem sua autoestima e sua confiança destruída todos os dias ao contrário eles se veem representados o tempo todo na mídia, na escola, nos livros, nos espaços de poder, né, então como exigir meritocracia se os negros e negras estão tempo todo tendo a sua subjetividade destruída por todos esses espaços, então a gente precisa questionar isso. Agora um ponto pra encerrar sobre o lugar do branco na luta antirracista é que é preciso evitar a síndrome da Princesa Isabel, como eu tô chamando ou síndrome do Salvador Branco. Não é se colocando no lugar de quem é superior e faz caridade que se contribui com o antirracismo, esse lugar pode até ser bem intencionado, mas ele é racista porque ele parte de uma posição de superioridade, aquele que ajuda com cestas básicas os “pobrezinhos” ou que vai fazer uma caridade na “África” também porque a África é sempre tratada como se fosse um país e não como um continente. É preciso fugir desse lugar, a luta antirracista é ao lado do protagonismo negro e a partir daquilo que o movimento das organizações negras que estão no cotidiano das populações negras definem, não é errado distribuir cestas básicas, mas você pode fazer isso sem se colocar como branco salvador e caridoso e você pode fazer isso junto com organizações negras.

Pegando a deixa já que ao longo da nossa conversa você citou diversos intelectuais como Djamila Ribeiro, Silvio Almeida, Lélia Gozalez, Adilson Moreira, Grada Kilomba, Abdias do Nascimento, Kabengele Munanga e Guerreiro Ramos. A piinguid na sua página no instagram guid’spages listou quatro livros de autoras negras que vale a pena vocês conferirem. Quarto de Despejo – diário de uma garota favelada – Carolina de Jesus; A pequena ilha – Andrea Levy; Úrsula de Maria Firmina dos Reis e o Olho Mais Azul de Toni Morrison. Leiam e compartilhem a leitura! E é isso, obrigado, Leandro, mais uma vez pela tua participação. Foi muito bom te receber aqui.

Prof. Leandro: bom, eu queria agradecer, obrigado Tony pelo convite, obrigado pela oportunidade, pelo espaço para a gente discutir uma pauta que é extremamente relevante em nosso país e para o mundo de forma geral, uma pauta também que é muito cara para mim seja porque eu sou professor de sociologia e antropologia e tô trabalhando o tempo todo com isso em sala de aula ou seja porque eu sou um homem negro, já que como fiz essa discussão nas categorias de pardo, moreno, mulato, foram categorias construídas pra tentar embranquecer a população brasileira. Talvez a gente poderia fazer um podcast só pra discutir sobre isso, discutir sobre a ideologia da mestiçagem no Brasil e discutir sobre essa lógica do embranquecimento e colorismo. Mas agradeço muito queria dizer que meu Instagram é @leandrocostacs e que eu tenho feito notas sociológicas como eu tenho chamado, postagens refletindo a partir da sociologia e várias dessas reflexões são sobre a questão social, então quem quiser me acompanhar é só seguir lá. Dizer também que eu tenho uma banda chamada Antídotos Sociológicos (@antidotossociologicos) você pode seguir também e que um dos objetivos dessa banda, talvez o principal, é justamente usar a música como forma de reflexão e como forma de levar a crítica social. Inclusive nós temos uma música chamada Negra Consciência que faz uma síntese da nossa visão sobre essa questão racial, uma música que eu tenho muito orgulho de ter escrito e que está no nosso primeiro álbum Fenda dos Desesperados que está disponível em todas as plataformas digitais, Spotify, Youtuber, Deezer e etc. Então é isso, obrigado, estou à disposição, obrigado também a todo mundo que esteve ouvindo até aqui, todos os amigos, colegas, os ouvintes do podcast. Enfim, agradeço profundamente. Abraços.

Muito obrigado mais uma vez, Leandro, pela tua participação e reiterando o que ele disse, além de professor é também guitarrista da banda Antídotos Sociológicos (@antidotosociologicos). Para ler reflexões Sociológicas cotidianas siga-o no Instagram: @leandrocostacs . A transcrição desse episódio você consultar em platonyco.com. E o podcast Sextou com Platonyco está disponível em todas as plataformas socias, agora também no OverCast e iHeartRadio. Até a próxima, cheiro.

Episódio anterior - Resistência e Redescoberta - a importância do #BlackLivesMatter.

Episódio seguinte - As Vantagens de Ser Invisível (feat. Luana, Revétria).

 

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