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Milagre na Cela 7 e Uma Lição de Amor: histórias conectadas e muito choro!

Foto: Arquivo Pessoal, 2020.

E mais uma sexta-feira chuvosa, 15 de maio de 2020, chegou e com ela chegou também o Sextou com Platonyco. Hoje eu vou tratar com vocês sobre dois filmes que são super emocionantes, inclusive um que pelo seu recente sucesso tem sido comentado por muita gente. Confesso que fiquei relutante no início pra assistir, mas olha... fazia muito tempo que eu não chorava com uma produção tão sensível quanto essa. Isso porque Milagre na Cela 7 te faz refletir sobre princípios e valores que se fazem raros em nossos dias. Dirigido por Mehmet Ada Öztekin, esse é um filme turco adaptado do filme sul-coreano Miracle in Cell No 7 de Lee Hwan-gyeong (2013).

E não dá para falar de o Milagre na Cela 7 sem lembrar é claro de Uma Lição de Amor, filme de 2001, dirigido por Jessie Nelson e que teve no elenco Sean Penn, Michelle Pfiffer e as irmãs Dakota e Elle Fanning. Mas antes de falar um pouco mais sobre esses filmes quero deixar claro para quem tá chegando agora que o objetivo desse podcast não é dar spoiler, mas quem sabe te incentivar a conhecer as tramas que serão aqui abordadas. Eu sou Platonyco e tá começando mais um Sextou!

Milagre na Cela 7 trouxe a história de Memo, interpretado por Aras Bulut İynemli e Ova, interpretada por Nisa Sofiya Aksongur, pai e filha separados por uma acusação injusta de assassinato. Já em Uma Lição de Amor temos a história de um pai que luta pela guarda de sua filha, as histórias podem ser diferentes ainda que com personagens similares, mas ambos os pais possuem deficiência intelectual que é um transtorno de desenvolvimento. Gostaria de abrir aqui um parêntese pra falar que não tenho propriedade do assunto em questão, inclusive as nomenclaturas que estou utilizando aqui estejam ou talvez estarão defasadas daqui a algum tempo, por isso busquei a ajuda de alguns amigos e profissionais que entendem melhor sobre o assunto. Bom, importante mencionar que são histórias que acontecem em épocas diferentes, em contextos diferentes. Enquanto em 2001, ano em que foi lançado Uma Lição de Amor, o que sabíamos sobre a questão da inclusão ainda era pouco debatido, imagine em O Milagre na Cela 7 que se passa na década de 80 onde a sociedade e as leis excluíam ainda mais as pessoas com deficiência. 

É claro que isso não justifica o fato de ambos os pais terem sido tratados de forma discriminatória durante as tramas. Memo e Sam são extremamente ingênuos, não compreendem muito bem as situações, enquanto um tenta entender o porquê de estar preso, o outro tenta entender o porquê de não ter sua filha. Aliás Ova e Lucy apesar da pouca idade já entendem muito sobre o particular universo de seus pais. Há um trecho em que Ova pergunta a sua bisavó por que seu pai era diferente e ela responde, em uma linguagem que poderia ser entendida por uma criança, que era porque ele tinha a mesma idade que ela. E esse foi o argumento endossado pelas autoridades em Uma Lição de Amor para afastar Sam de Lucy porque ele apresentava um perfil de comportamento de cognição que não era esperado para a idade dele. As autoridades comparavam a idade dele com a da própria filha, mas de uma forma que ele fosse categorizado, visto unicamente como alguém que tivesse total dificuldade para se adaptar a esse contexto, em que exigia dele a responsabilidade de pai, o que não era bem assim. Sam cuidou muito bem de sua filha desde sempre, aliás, ambos.

Não posso deixar de citar as pessoas que foram importantes nesse processo de criação de uma criança, que é difícil e que exige muito de alguém. A avó de Memo e a professora de sua filha, bem como a vizinha de Sam e os seus amigos os ajudaram nessa tarefa difícil. Os trechos iniciais de Uma Lição de Amor mostram como Sam lidou com a paternidade nos meses e anos iniciais de Lucy. As madrugadas em claro, o pouco manejo com as fraldas, enfim tudo o que um pai ou mãe solteira de primeira viagem lida. Sua vizinha Annie, interpretada pela maravilhosa Dianne Wiest, o ajudou quando ele já não podia levar sua filha para o trabalho. Sempre solicita, ela, utilizando uma linguagem acessível pra ele, através dos programas de televisão que ele tanto gostava, explica os horários em que Lucy precisava se alimentar. “Olha quando passar tal programa, é o horário em que você deve alimentar ela”. Pra quem tem essa deficiência as rotinas são fundamentais e a quebra dela significa muito pra ele, tanto que mais a frente sua filha resolve leva-lo em uma lanchonete diferente, com um cardápio totalmente diferente, em um dia em que ele já estava acostumado a fazer certa tarefa com os amigos, o resultado é que ele tem uma crise.

A avó de Memo é o pilar da família, é ela quem tenta mediar o contato do seu neto com o mundo e com a filha. Ela entende as dificuldades pela qual ele passa, mas ela não o limita, pelo contrário, ela sabe que sua ingenuidade não significa irresponsabilidade, tanto que é ele quem cuida das ovelhas, nomeando inclusive cada uma delas, além de se encarregar das demais tarefas da casa e cuidados com sua filha. É ele quem leva a filha para escola e sabe que lá ela será bem educada pois tem uma professora que se importa com Ova. Professora essa que foi fundamental ao longo da trama, por... É... Bem isso vocês vão ter que assistir pra descobrir.

Memo é acusado injustamente de assassinar a filha de uma importante autoridade do lugar em que mora e que, revoltado, faz com que ele seja julgado e condenado à morte, sem critério algum, somente baseado em provas falsas e com resultados de diagnósticos que apontam um quadro mental que de fato não correspondia com o de Memo. Tanto é que os próprios prisioneiros e direção do presidio para o qual ele foi mandado não entendem o porquê de ele ainda estar ali. Inicialmente ele é espancado, ferido por seus companheiros de cela, mas com o tempo ele ganha a confiança e a amizade que culminam com o emocionante final deste filme. Inclusive há várias teorias de que possa haver uma ligação parental de um deles com a filha de Memo. O fato é que Todos estão empenhados para que ele seja solto, mas tudo aponta que isso não será possível. A pergunta que fica no ar é: é Memo será morto ou não? Uma dica importantíssima que eu posso dar pra você é que as lágrimas do grande público que assistiu a esse filme sugerem o seu final, mas isso você também vai ter que descobrir.

Enquanto isso, Sam encontra ao seu lado na batalha pra conseguir a guarda de sua filha a bem sucedida advogada Rita Harrison Williams. Mas isso não aconteceu de uma forma tão simples assim. Bom, o fato é que seu novo cliente muda a vida dela e principalmente sua relação com seu filho que há tempos já não andava bem. Dedicada integralmente ao trabalho, Sam vai lhe ajudar a perceber que é importante também dar atenção e carinho para um filho. E isso ele sabia muito bem, tanto que ao ser questionado por Lucy por ser diferente, ele, ainda que não saiba dar a resposta adequada, recebe um emocionante elogio de sua filha de que ela tinha sorte de tê-lo como pai porque nenhum outro costumava levar um filho ao parque.

Bom, acho que vocês já perceberam até aqui os muitos motivos pra se assistir a essas duas tramas. Você vai refletir sobre a importância do abraço, mais um significado para o amor dito por um prisioneiro que compartilhava a cela 7 com Memo de que “amor não é se matar por alguém, mas sim viver”, que palavras que às vezes a gente utiliza no dia-a-dia podem servir somente pra perpetuar preconceitos, o quão é importante utilizarmos uma linguagem seja no trabalho, em casa, com os amigos que promovam a inclusão, a igualdade e o respeito. Sim, respeito quando você usa o termo adequado pra falar sobre os tipos de deficiência a pessoa a quem se refere não  vai se sentir inferiorizada ou discriminada e isso vai evitar algum tipo de constrangimento, até porque deficiência não é e nunca foi ineficiência.

Enfim, é isso espero que vocês tenham gostado do episódio de hoje e assistam os filmes aqui indicados, lembrando que a transcrição completa desse episódio você pode consultar no blog: http://platonyco.com.  O podcast Sextou com Platonyco também está disponível nas principais plataformas digitais: Spotify, Deezer, GooglePodcasts e demais plataformas, compartilhem. A gente se encontra na próxima sexta, cheiro!

Episódio Anterior - Anne With An E - os olhos reconstrutivos de Anne of Green Gables 

Episódio Seguinte - A crítica social em Corra! (feat. Karol Abreu)

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