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Anne With An E — os olhos construtivos de Anne of Green Gables

Foto: Arquivo Pessoal, 2020.



Oi, oi gente! Sejam todos e todas bem-vindos e bem-vindas a este primeiro episódio do podcast “Sextou com Platonyco”. Esse é mais um espaço onde pretendo compartilhar com vocês sobre tudo (ou melhor dizendo, quase tudo): séries, livros, histórias, música. A partir de agora toda sexta-feira vou te trazer uma história diferente, com um olhar diferente. A ideia aqui é fazer com que você reflita sobre o seu papel no mundo, mas de um jeito divertido…. É… ou você acha que a sua exposição a conteúdos midiáticos, sejam eles audiovisuais ou não, não vai afetar ainda mais a sua consciência crítica com relação a sociedade?! Difícil hein. E aí? Todos prontos? Então te segura!
E no primeiro episódio vou falar sobre uma série que tocou muita gente e causou revolta em uma base fiel de fãs! Estou falando sobre a série canadense Anne With An E, adaptação da série de livros Anne of Green Gables, publicados lá em 1908 pela autora Lucy Maud Montgomery. Como eu disse a vocês a série causou revolta em milhares de fãs no mundo todo e obviamente eu sou um desses. Pra quem ainda não conhece a série é sobre a história de Anne uma jovem órfã de 13 anos, sonhadora e muito a frente do seu tempo que é adotada por um casal de irmãos (Marilia e Mattew Cuthbert).
Eles estavam à espera de um menino que pudesse ajudar com as atividades na fazenda onde viviam. Mas por algum engano quem chega à fazenda? Isso mesmo! É uma garota simples, mas com um passado muito complexo e abusivo. Anne sofreu bastante por onde passou, sendo julgada entre outras coisas pela sua estética e principalmente pelo seu jeito de ser, afinal tinha um espírito livre que causava desconforto nas pessoas daquela época com padrões totalmente diferentes dos nossos — e dos dela. Você já passou por algum tipo de discriminação por ser quem é? A sua orientação sexual te fez ser alvo de piadas na escola? Ou você era do grupo que atacava os outros pra se sentir incluído entre os demais? Bom, seja lá qual foi o seu passado (ou o seu presente), essa jovem carregou toda essa carga emocional nas costas e nunca permitiu que isso tirasse dela o brilho inocente no olhar.
Obviamente que a vida pacata naquele vilarejo não seria mais a mesma após a chegada de Anne. Todos, inclusive Marília que no inicio não apoiava a ideia da adoção, se emocionam e se contagiam com a garota. Mas a trama é completa, os personagens são complexos, assim muitos temas são abordados de uma forma muito delicada: homofobia, sexismo, racismo e tantos outros.
Quem acompanhou hoje a minha participação no podcast da pinguid, percebeu que o tema do abandono familiar e marginalização do indivíduo na sociedade são alguns dos pilares críticos na narrativa de Capitães da Areia, do autor Jorge Amado. De certa forma podemos traçar um paralelo entre a orfandade dos meninos que viviam no Trapiche abandonados à sorte e de Anne. Ainda que tenhamos diferenças significativas quanto ao enredo, as histórias se encontram na necessidade da figura materna ou do seio familiar. Todos queriam ser filhos de alguém.
Não sou malvado, então não irei dar tantos spoilers assim, eu prometo! Mas eu vou falar brevemente sobre de que forma esses temas são abordados na série.
Começando pela homofobia, a gente vai ter a história de Cole Mackenzie e da Josephine, tia da melhor amiga de Anne: ambos são gays, de faixas etárias bem distintas. Ele um jovem ainda e ela uma senhora, mas que criam um laço muito grande pela identificação, eu diria que pela aceitação de ser quem eram. No início foi muito mais difícil para o Cole, que sofria bullying na escola por ser diferente, por ser delicado. Ele era um artista! E em um dos episódios, ele tem as suas obras destruídas e num excesso de raiva acaba ferindo um dos seus agressores. Sozinho, se sentido excluído e sem lugar no mundo, Anne lhe fala o seguinte:
  • Não é o que o mundo reserva pra você, mas o que você traz para o mundo.
Talvez eu seja idealizador demais, não sei, mas eu sempre acreditei que se você estuda, se dedica a algo é porque você acredita que tem o dever de deixar esse mundo um pouco melhor do que quando você chegou. Você não se conforma com o que vê e quer sempre mudar. Quem você é, ou como uma amiga costuma dizer, “Quem você está” é o que esse mundo vai poder absorver no final de tudo.
Anne quando descobre a sexualidade do Cole, ao invés de criticá-lo, agradece a chance, a oportunidade de saber. É o diferente que chama a atenção dela, tanto é que ela o incentiva dizendo o seguinte: “Ame quem você ama e fique com essa pessoa.” Os padrões eram outros, como eu já disse, ainda muito mais preconceituosos que os dos século 21, mas ela o encoraja e encoraja nossa comunidade nos dias atuais, até porque não é segredo pra ninguém que o Brasil é um dos países que mais mata lgbtqi+ no mundo.
Josephine, uma senhora viúva, experiente resolve acolher Cole com o maior carinho em seu lar: “Você tem uma vida de muita alegria pela frente. Não sem momentos difíceis e tropeços na estrada. Fique seguro com aqueles em quem confia.” Enfim, o resto dessa temática vocês vão acompanhar lá na série.
Agora continuando, a série está tão à frente do seu tempo que a gente vai ver jovens, mulheres que quebram regras sociais daquela época por não se encaixarem nos padrões. Há um emocionante momento onde as amigas de Anne, em uma espécie de ritual manifestam aquilo que chamamos de sororidade, que é uma palavra que vem sendo discutida desde a última edição de um reality show que vocês sabem muito bem qual é.
(…)
Emocionante, né?! Pra quem não entendeu, eu vou traduzir aqui:
  • Nós, mulheres, poderosas e sagradas, declaramos nesta noite santificada que nossos corpos divinos pertencem a nós mesmas. Escolheremos a quem amar e em quem confiar. Caminharemos nesta Terra com graça e respeito. Sempre teremos orgulho do nosso grande intelecto. Honraremos nossas emoções para que nossos espíritos triunfem. E se algum homem nos desmerecer, mostraremos onde fica a porta. Indestrutível é a nossa força. E livre é a nossa imaginação.
As mulheres eram excluídas de muitas áreas da sociedade, não tinham posses mas eram vista com uma, veja só?! Não recebiam as instruções básicas sobre muitas coisas pois viviam em uma linha tênue do que era permitido e do que era tabu. Anne revolucionária como era, sela um pacto que muda a vida de todas dali em diante.
A liberdade de expressão ao longo da história passou por diversas repressões, mas na série ganha uma notoriedade o fato de que durante uma tentativa de sufocar a informação midiática, a sociedade daquela época leva uma importante lição de que, segundo as palavras da professora Stacey: “Jornalismo de verdade deve defender aqueles que não possuem voz, não calá-los ainda mais.” Em um contexto político polêmico em que vivemos, onde o jornalismo tem sido visto como inimigo e não como aliado do governo, essa série nos faz refletir sobre esse que é mais um dos direitos humanos que tentam nos tirar. Mas diferente daquela época agora temos a internet bebê beijos.
N questões poderiam ser debatidas aqui, mas nesse primeiro episódio eu quero que vocês façam as suas reflexões, tenho certeza que as lições que serão aprendidas ao longo das três temporadas vão lhes marcar por muito tempo. Preparem seus lenços e nos vemos no próximo encontro. Cheiro no coração de vcs!!!
E aí, gostou do episódio? Espero que sim! Na próxima sexta nos encontraremos novamente!



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